GUELRA. Síncrono | do registro ao fluxo | Flávio Rodrigues


7 a 11 de Fevereiro | gnration


Comecei a praticar dança e a desenhar em 1992 com a professora, coreógrafa e artista visual Alexandrina Costa, natural de V. N. Gaia. Embora a minha formação académica se tenha posteriormente direcionado para o território das artes performativas em escolas como o Ginasiano ou Balleteatro, fui continuamente em modo autodidata alimentando também a prática do desenho. Entre 2006 e 2017 interpretei como bailarino peças coreográficas de diversos criadores de dança contemporânea tais como Né Barros, Joclécio Azevedo, Elisa Worm ou Tânia Carvalho, contudo, após 2017, fui optando por não exercer esta minha função em prol de dedicar o máximo de tempo aos meus próprios projectos de criação artística também eles iniciados em 2006. São maioritariamente solos, reparo-os como uma construção paulatina autobiográfica e considero-os como projetos experimentais. Embora o corpo performativo marque uma presença fundamental, são cada vez mais notórias as intercepções entre diferentesmediums, não só o desenho e movimento como também a escultura, manipulação de objetos e composições de paisagens sonoras. Nutro cada vez mais interesse e fascínio em aprofundar os resíduos (matérias brutas, recicláveis e provenientes de processos de respigação) que os acontecimentos performativos deixam como rastos, rastros e/ou memórias. Recentemente, ao revisitar o meu arquivo dos últimos 15 anos de criação e pesquisa apercebo-me que, maiormente nos cadernos de bordo ou diários processuais, o desenho é manifestamente uma ferramenta transversal à obra que tenho desenvolvido, ora como escrita gráfica, desenho de figurino, mapeamento do corpo e do lugar, sonoridades ou objectos. Foi nesta revisitação e entendimento que despoletou em mim a intenção de desenvolver um novo projecto, onde pretendo colocar em clara intercepção e diálogo o desenho (registro) e a performatividade (corpo), partindo do princípio de realizar/activar registros em torno e sobre o movimento no espaço e no tempo. Atribuo ao projecto o título de “Síncrono | do registro ao fluxo”. A prática do desenho será, neste projecto em específico, entendida como consequência ou resposta a ações do campo da efemeridade, logo serão encaradas e recebidas em processo contínuo de transformação e adaptação quer ao lugar, ao tempo e à presença especifica de cada observador (público). Também é importante anotar que a prática do desenho visa ser posta em lugares herméticos, de desafio e de risco. Prevejo, por exemplo, à semelhança das minha criações anteriores, recorrer a materiais originários de uma atenta consciencialização do seu caráter sustentável, por isso elementos respigados, orgânicos ou recicláveis tais como pedras, tecidos, madeira ou ferro serão os elementos a dar “corpo” aos desenhos. No território performativo intento a abertura para lugares de pesquisa e de experimentação, onde o gesto é veiculo, neste caso a partir do ato de fazer/compor/construir o desenho. Em resumo, o corpo como instrumento responde, numa dança em potência, à criação de um objecto final, nesse transcurso o performer propôe-se a transportar, posicionar, rasgar, cortar, coser, riscar e/ou quebrar os/nos diferentes materiais/matérias. Cada ação e sua respectiva qualidade visa e objectiva ser composta e coreografada de forma minuciosa, ritualizada e altamente rigorosa. No ritual como proposta, é proposto ao público o desaceleramento e uma escuta multi-prisma. Na obra “Do desaparecimento dos rituais” o filosofo Byung-Chul Han preconiza de forma clara que “há que recuperar a calma contemplativa. O sabat indica que a calma contemplativa, a quietude e o silêncio são essenciais para a religião. Também neste sentido a religião se contrapõe diametralmente ao capitalismo. O capitalismo não gosta de calma. A calma seria o grau zero de comunicação e, na era pós-industrial, o grau zero de comunicação”. Interessa-me para este projecto, de algum modo, friccionar a tão comum sensação de cansaço, de produção e de constante conflito competitivo que a sociedade ocidental contemporânea tanto se alimenta. Planeio que o processo de criação deste projecto aconteça em contexto de breves residências artísticas, incentivando se nutrir de forma processual e de investigação contínua. No final de cada residência será sempre pensada uma abertura e partilha do processo para com o público. Estas apresentações são para já imaginadas e consideradas como sendo um acontecimento informal, de visita, de debate e de experiência sensorial, onde o público ao percorrer o espaço irá ao encontro dos vários dispositivos (desenhos) que estão a ser construidos em tempo real (ação/performance). Os registros permanecerão após a performance para poderem ser re-visitados e re-olhados de outras e novas perspectivas. No decorrer de todo o processo criativo será elaborado um trabalho crucial de documentação, que passa pela elaboração de um vídeo documental do realizador de cinema Gustavo Dos Santos.

Flávio Rodrigues (1984) é artista multidisciplinar, começou a dançar e a desenhar com a professora e artista Alexandrina Costa em 1992. Tem formação em Dança pelo Ginasiano (1996), Balleteatro Escola Profissional (2003), Dance Works Rotterdam (2005) e pelo Núcleo de Experimentação Coreográfica (2008). Frequentou o curso de Intervenção Pública e Criação de Obras Site-specific na Universidade Lusófona (2009) e frequentou o curso de DJ na escola Bimotor (2015). Em 2012 participa nos encontros Les Réperages/Danse à Lille e integra, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, a residência coreográfica Correios em Movimento/Dança em Trânsito (Brasil, Rio de Janeiro). Desde 2006 que desenvolve os seus próprios projectos de criação artística, multidisciplinares e de carácter experimental. O desenho, performance arte, manipulação de objectos, som, movimento e a escultura são alguns dos mediums a que recorre, objetivando induzir o corpo/obra em erro/camuflagem/estados abstractos e poéticos, como também explorar plasticidades de natureza bruta, orgânica e/ou crua, maioritariamente provenientes de processos de recolha/respigação. Os seus projectos têm sido apresentados e expostos em diferentes lugares e em parceira com diferentes estruturas - quer de apresentação, co-produção ou apoio à residência de criação – como Teatro Municipal Rivoli (Porto), Ilka Studios (Hannover), 4BidGallery (Amsterdam), Rua Gaivotas 6 (Lisboa), Faculdad de Bellas Artes U.C.M. (Madrid), DevirCapa (Faro), Centro de experimentação artística CEIA (Moita) ou Festival Mandala (Wrocław). A par ao desenvolvimento das suas próprias criações e pesquisas, tem vindo a colaborar como figurinista, músico, cenógrafo, performer (entre 2006 e 2017) ou assistente de ensaios com diferentes artistas. É artista associado do Balleteatro desde 2021.

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