Para fabricar corpos dóceis

January 4, 2018

 

 

É dócil “(...) um corpo que pode ser submetido, que pode ser utilizado, que pode ser transformado e aperfeiçoado” – Foucault (1988, p.126)

 

Antes de iniciar este meu pequeno contributo, gostaria de deixar claro que não consigo imaginar a educação de uma criança sem ensino artístico e que, enquanto artista que trabalha com crianças, não a consigo retalhar as áreas de ensino da forma como são enunciadas nas orientações curriculares do 1º ciclo do ensino básico. Ou seja: não consigo separar a educação artística em áreas de especialização, retalhando mais ou menos a música, as artes visuais, a expressão dramática, a dança ...etc, etc.

Ao afirmar que “em qualquer sociedade, o corpo está preso no interior de poderes muito apertados, que lhe impõem limitações, proibições ou obrigações” (p. 126), Foucault (2004) explicita, de forma clara, que existem micropoderes que se movimentam no corpo social – onde se inclui a escola-, propiciando mudanças de posições nos indivíduos. O corpo social é, assim,  algo fabricado que se consolida ao longo do tempo, influenciado por uma opressão calculada, desenvolvido em cada função corpórea e com intuitos de automatização.

O principal alvo, neste processo, é o Homem - objecto do poder - que tem como função o trabalho de incorporar nos corpos – neste caso particular que analizo - as crianças -  características de docilidade. Verificamos numa leitura  dos  programas e orientações curriculares dedicados às artes esta mesma função. A total ausência de orientação artística quando se elabora, dentro de uma área curricular específica chamada EXPRESSÃO E EDUCAÇÃO:FÍSICO-MOTORA, MUSICAL, DRAMÁTICA E PLÁSTICA (p.30), um sub-programa que se foca no corpo e na sua fisicalidade ( EXPRESSÃO E EDUCAÇÃO FÍSICO-MOTORA), sem nenhuma preocupação em ligar o corpo das crianças visadas (1º ciclo do ensino básico) ao propósito enunciado na matriz curricular, a saber: expressões artísticas, mas sim como uma poderosa ferramenta de controle, orientação de treino, que age de forma disciplinadora e actua como policiamento do corpo. 

Como afirmou Foucault (2004) “um corpo que pode ser submetido, que pode ser utilizado, que pode ser transformado e aperfeiçoado” ( p. 126). Pergunto-me, enquanto artista que trabalha com crianças, onde está a educação artística  nestas palavras e frases: “driblar”, “toques de sustentação”, “cabecear”, “subir para um plano superior”, “deslocar-se ao longo da barra”, “curvar com cruzamento de pernas”, “travar de lado” (p.40-56).

Pergunto-me enquanto encarregada de educação, como é que um professor generalista lê e cumpre as orientações curriculares com frases destas:

“Certas áreas são especificadas com maior abertura do que outras, quando os professores podem optar por uma variedade de alternativas para obter efeitos idênticos (o caso da área de Jogos, particularmente nos 1.o e 2.o anos) ou quando factores subjectivos, como a expressividade, são essenciais (É o caso das Actividades Rítmicas Expressivas).”(p.36-37)

E ainda me questiono mais quando, focando-me nas instruções dadas no - BLOCO 6 — ACTIVIDADES RíTMICAS EXPRESSIVAS (DANÇA)(p.57), como será que um professor do 1º ciclo interpreta:  “exploração individual do movimento”, “em todas as direções e sentidos definidos pela orientação corporal”, “combinar habilidades motoras”ou “com ambiente musical escolhido pelos alunos”.


O corpo das crianças também se torna, aqui, em alvo do poder. Treinado e submetido para se tornar ao mesmo tempo tão útil quanto sujeitado. O poder, que  se infere do documento orientador, separa a criança  de si mesmo, desliga o corpo de si mesmo e cria uma outra camada de natureza social em cima dele. As frases “exploração individual do movimento” ou “combinar habilidades motoras” não reprimem, mas  produzem, criam corpos, exercitam habilidades, capacitam e conduzem a um corpo dócil. 

Lendo atentamente as instruções dadas nas orientações curriculares de cada BLOCO (são 7 no total) ainda reforço  as minhas dúvidas:
“acções motoras básicas com aparelhos portáteis?”; “Realizar acções motoras básicas de deslocamento, no solo e em aparelhos?” ; “coordenando a sua acção para aproveitar as qualidades motoras possibilitadas pela situação?” ; “Realizar habilidades gímnicas ?” ; “em esquemas ou sequências no solo e em aparelhos?” ; “Participar em jogos ajustando a iniciativa própria, e as qualidades motoras na prestação?” ; “realizando habilidades básicas e acções técnico-tácticas?” ; “com oportunidade e correcção de movimentos?” ; “Patinar ?” ; “deslocamento com intencionalidade e oportunidade na realização de percursos variados?” ; “habilidades apropriadas em percursos na natureza? “ ; “de acordo com as características do terreno e os sinais de orientação?”

Mas....nem tudo é mau. 
A escrita deste texto inspirou-me numa série de sessões com crianças onde a disciplina e policiamento do corpo descritas nas orientações curriculares  me possibilitou a experimentação porque, sou artista e trabalho com crianças e porque me parece que, neste contexto, a única possibilidade é encarar este documento como uma situação.

 


“ A vida da interpretação, pelo contrário, é o crer que não há mais do que interpretações. Parece-me ser necessário compreender algo que muitos contemporâneos nossos esquecem, isto é, que a hermenêutica e a semiologia são dois inimigos. Uma hermenêutica que se a uma semiologia tende a crer na existência absoluta dos símbolos: abandona a violência, o inacabado, a infinitude das interpretações, para fazer reinar o terror do índice e suspeitar da linguagem. Reconhecemos o marxismo posterior a Marx. Pelo contrário, uma hermenêutica que se desenvolve por si, entra no domínio das linguagens que devem implicar-se mutuamente, nessa região intermediária entre a loucura e a pura linguagem, É aqui que reconhecemos Nietzsche” (Foucault, 1997, p.27)
           


Referências            

Foucault, M. (2004)“Os corpos dóceis”. Vigiar e punir: nascimento da prisão. 29ª ed. Tradução de Raquel Ramalhete. Petrópolis, RJ: Vozes
Foucault, M. (1997) Nietzsche,Freud,e Marx, Trad. Jorge Lima Barreto, Princípio Editora, António Daniel Abeu, Editor, São Paulo.
Foucault, M. ( 1988 ). Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes.
Organização Curricular e Programas, Ensino Básico — 1.o Ciclo, Departamento da Educação Básica, 4.a Edição: Janeiro 2004, revista,Depósito Legal: 127 792/98, ISBN: 972-742-169-5 http://www.dge.mec.pt/expressoes-artisticas-e-fisico-motoras


Cristina Mendanha

 

 

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